terça-feira, 3 de agosto de 2010

1° Tour Palco Fora do Eixo em São Carlos



Muitas vezes é necessária a presença do outro para que a gente reconheça nossas potencialidades locais. A visita de Cláudia Schulz, do Macondo Coletivo, da longinqua terra de Santa Maria - RS, representando o Palco Fora Do Eixo, trouxe novas inquietações para somarmos à nossa maneira de trabalhar, que está em constante construção. O ponto fora do eixo que recebeu a Cláudia foi o Massa Coletiva.


Realizada nos dia 28 e 29 de julho de 2010, a Tour PFE em São Carlos teve duas atividades. Na quarta, dia 28, o Teatro Municipal abriu suas portas, como toda quarta-feira pelo projeto Quartas Alternativas, para uma conversa com os grupos sobre o PFE. Estiveram presentes nesse encontro representantes de quase todos os grupos de teatro da cidade: Acaso, Atuando em Psi, Cia da Insônia, Preto no Branco, Teatro Descalço, além da presença do Janela Aberta e de artistas independentes. Senti a falta do pessoal do circo e do Núcleo Arames D'arte.

No dia seguinte, quinta, a maioria das pessoas presentes no teatro se reuniu na sede do Grupo Preto no Branco, ás nove da manhã, para a construção do Dito, nosso primeiro refletor confeccionado com latas de tinta. E também um manual passo a passo, com desenhos, de como fazer. À tarde, voltamos ao Teatro Municipal para uma importantíssima aula de iluminação (de verdade, na prática, vendo de perto os equipamentos) ministrada pela Cláudia e pelo Ernesto, técnico do Teatro Municipal, que olha só: sempre esteve lá, ao nosso dispor ! Se tivéssemos tido essa idéia antes, teríamos passado menos perrengues nas montagens dos grupos!

Precisou vir de tão longe a Cláudia para começarmos a estabelecer um diálogo com o Massa Coletiva, quase nosso vizinho de tão perto. No primeiro encontro, a conversa começou com Carol Tokuyo, do Massa Coletiva, nos explicando o porquê da escolha por um trabalho colaborativo, e como ele funciona. É quase uma ironia que alguém de fora do teatro venha nos explicar isso, uma característica inerente ao processo teatral, ainda mais para nós, que ousamos nos dizer “teatro de grupo”. Mas sim: foi esclarecedor !


A palavra principal do discurso colaborativo é somar. Fazer parte de uma rede nacional de coletivos teatrais, integrar um cardápio saboroso onde os mais diversos modos de produção e várias linguagens estão representadas. Potencializar as ações que começam pequenas. Aprofundar a pesquisa e a crítica, não se contentar em ouvir do seu colega que seu novo trabalho é “legal” ou “não gostei”. Poder criar raízes, sem ter que se jogar no fluxo de passagem avassalador que é tão forte em cidades universitárias como a nossa.

A receita é simples: fermentar seu próprio grupo, fermentar os grupos locais, fermentar-se em rede nacional (roubando uma expressão inventada pela minha amiga e colega de palco Nádia Stevanato). Fermentar seu próprio grupo já é difícil quando não se tem suporte, quando o fomento ainda está engatinhando, quando o mercado não existe. É nossa maior dificuldade e maior reclamação. Mas uma coisa não acontece sem a outra: sem se conhecer, sem a troca entre as pessoas interessadas no teatro, ficando fechados num pequeno grupo, aí é que não se cresce, nem um pouquinho.



São Carlos tem um movimento ainda muito rudimentar de teatro. Talvez pelo fato de não termos em nenhuma das duas universidades um curso de formação em Artes Cênicas, apesar de a cidade ter um pensamento de política cultural em desenvolvimento, as artes cênicas são representadas em nível semi-amador, semi-profissional, com bons trabalhos por parte dos atores, mas muito pouco pensamento voltado para gestão, manutenção, diálogo com a cidade, pesquisa, ao teatro como um todo. Resumindo, enquanto se pensar dessa maneira, os grupos serão efêmeros, os trabalhos superficiais e aqueles que se destacam vão acabar indo embora mesmo para estudar ou trabalhar em outros lugares, sendo tragados pelo famigerado “eixo”.

Para os grupos, fica a tarefa de articular uma nova ação do Palco Fora do Eixo na cidade, ainda mais estando tão perto de outros coletivos como Enxame (Bauru) e Colméia (Araraquara).

Não pode piscar mesmo, galera !

Fotos: o grupo.

Um comentário:

Dinha disse...

Gostei da reflexão.
Cabe ressalvar que outros grupos da cidade não estiveram presentes, tais como Teatro da Casa Velha, Teatro Poronga e a Cia de Teatro Musical.
Destes, os que acompanho mais de perto (tão perto que até dentro) são os dois primeiros, aliás importantíssimos no que se refere a tranformar São Carlos num ponto fora do eixo, no que tange às artes cênicas.

Cabe também uma cutucada: desde o primeiro Festival Contato que procuro o pessoal pra tentar fazer os grupos teatrais da cidade participarem, dar uma movimentada na cena. Somente ano passado no III Contato, o Teatro Descalço conseguiu uma abertura (bem bacana por sinal)e realizou uma intervenção. Em casa de ferreiro, o espeto é de pau, ou santo de casa não faz milagre?